Rosenbaum Design - Restaurante


Detalhe do painel que reúne a miscelânea de objetos iluminados de baixo para cima
Composição cenográfica faz uma releitura do colonial brasileiro
Com o restaurante Dalva e Dito, a proposta dos chefes de cozinha Alex Atala e Alain Poletto era resgatar a culinária colonial brasileira. O conceito incluía o resgate do clima de um tempo em que as famílias se reuniam em volta da mesa da cozinha para conversar e saborear a comida farta servida em tachos. Essa nostalgia foi o ponto de partida para o projeto do restaurante, localizado na região dos Jardins, na capital paulista, e cujo nome já sugere a intimidade familiar.
A concepção do ambiente ficou a cargo de Marcelo Rosenbaum, que passou uma semana na cidade mineira de Ouro Preto pesquisando as construções, a relação entre suas medidas, e observando as características dos espaços públicos da era colonial. A viagem inspirou uma ambientação inicialmente mais complexa, quase barroca, mas que aos poucos foi perdendo os excessos para se transformar em um projeto mais enxuto, uma releitura contemporânea do colonial brasileiro.
As dimensões permitiram a divisão fluida e funcional da área em térreo com bar, salão principal e terraço integrado, além de subsolo com lounge e mais um bar - somados, eles oferecem cerca de 250 lugares. A linguagem artesanal caracteriza a construção e os interiores, começando pelas paredes de aspecto rústico, em composição harmoniosa com o piso de ladrilhos hidráulicos. Elas foram executadas por jovens de grupos de risco social, capacitados pelo Instituto Arapoty para trabalhar com o superadobe, técnica de baixo custo surgida na Índia nos anos 1970. “Todo projeto precisa ter uma proposta de inclusão social. Esses jovens representam uma mão-de-obra qualificada para atuar no restauro de obras com adobe”, ressalta Rosenbaum.
A técnica emprega sacos de polipropileno como fôrma para o barro. O material é socado até atingir a compactação adequada e, a seguir, os sacos são empilhados, com linhas de arame farpado entre as fiadas para dar amarração. As etapas finais consistiram na remoção do plástico, com a ajuda de fogo, e no acabamento das superfícies, tonalizadas com corantes herbais.

A marquise marca o acesso principal ao Dalva e Dito

A caixa lateral, que não toca o solo, é vedada pelos muxarabis que delimitam o amplo terraço

O recorte circular expõe o interior da parede em superadobe

O terraço integra-se ao salão principal por meio de grandes aberturas
Influências da arquitetura moura, trazidas ao Brasil pelos portugueses na era colonial, também se fazem presentes no cenário. Entre elas estão o painel de Athos Bulcão, executado com cerâmica branca e azul - cores que predominam na azulejaria portuguesa a partir do século 17 -, e os muxarabis, que respondem pelos vedos laterais e de cobertura do terraço. Eles deixam vazar uma luz filtrada, que cria desenhos sobre as superfícies internas, contribuindo para a atmosfera leve e agradável do espaço.
Ao buscar elementos artesanais para a decoração, Rosenbaum coloca à disposição dos frequentadores da casa um rico conjunto de informações que valoriza a cultura popular brasileira. Logo no salão principal, o vistoso rosário de cerâmica numa das paredes é de autoria de Joelson Gomes, artista plástico pernambucano que já apresentou seus trabalhos em diversas exposições no Brasil e no exterior. No subsolo, onde forro e paredes foram revestidos por painéis melamínicos no padrão freijó, o destaque fica para os grafites de Derlon Almeida, que remetem à técnica da xilogravura e mostram um realismo fantástico inspirado no cotidiano da população do Recife. Na parede oposta, o painel laminado serve de fundo à miscelânea de itens que pertenciam ao acervo pessoal de Rosenbaum e incluem ex-votos, fragmentos, artefatos indígenas, peças cerâmicas, objetos vindos da cidade pernambucana de Caruaru. Nesse mesmo piso, foram dispostos o lounge e a grande mesa comunitária sob uma linha de luminárias antigas.

Bar da entrada, com tampo de peroba maciça e lustre de prata adquirido em antiquário. A porta e a cobertura empregam muxarabis

A iluminação suave em tom amarelado cria ambientação intimista no salão principal
Seguindo esse mesmo conceito, as mesas foram confeccionadas com sobras de pisos de demolição, assim como o balcão do bar, que ostenta tampo de peroba maciça. As cadeiras palhinha fazem uma referência direta à casa grande das fazendas. A ambientação é complementada por objetos adquiridos em antiquário, tal como o lustre colonial de prata, pendurado em posição de destaque sobre o bar da entrada.
O contraponto ao cenário artesanal fica a cargo da cozinha high tech, planejada pelo chefe Alain Poletto e separada do salão principal por grandes panos de vidro. Transparentes, eles permitem ver toda a movimentação dos funcionários e os equipamentos de avançada tecnologia.

No salão principal, o rosário com grandes contas cerâmicas é do artista plástico Joelson Gomes e o painel de fundo foi criado por Athos Bulcão

Ladrilhos hidráulicos estampados formam um tapete no pavimento inferior

O terraço integra-se ao salão principal por meio
de grandes aberturas

Vista geral do piso inferior

Na entrada, bar e área de espera. O ambiente é composto por elementos que fazem referência ao Brasil colonial e objetos de época

O bar do pavimento inferior é valorizado
pelo grafite de Derlon Almeida

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