quarta-feira, agosto 08, 2012


História do aparador.


O aparador é um móvel baixo constituido por um amário na parte inferior com  prateleiras abertas ou fechadas por portas e contendo ou não gavetas.É usado geralmente para guardar aparelhagem de jantar, objetos variados, utensilios ou alimentos, além de servir de apoio para os pratos durante as refeições. Algumas vezes ele  é  chamado erroneamente de “balcão” ou “bufete(buffet)”, pelas lojas e consumidores. Outras vezes é chamado de aparador uma mesa estreita, mais alta que as tradicionais para ser colocada encostada na parede compondo a decoração do ambiente e usadas costumeiramente para vasos de flores, esculturas e objetos utilitarios. Nesse caso, vale o apelido para tal mesa. 
É um movel que está ficando em desuso pela avalanche da tecnologia midiatica e está virando “rack”  ou estante para “home theater”. No entanto, ainda é um objeto muito usado nas residencias pela sua utilidade, mesmo que a sua função básica tenha mudado.
E foi exatamente por isso, pela morte ainda não anunciada, que resolvemos falar um pouco sobre ele. É uma historia contada curta, porque é um objeto de uso diferente da cadeira (que pode ser usado em qualquer lugar) ou de um produto proveniente da tecnologia, como os eletrodomesticos, carros e outros tornados indispensaveis pela onda consumista.  A historia dos “sideboards” é curta em palavras, mas rica em exemplos magníficos de um objeto de uso que atravessou três séculos com Design primoroso, sempre em constante evolução. A utilidade da função do aparador continua viva e contar a sua historia é uma necessidade, dado que uma das causas da sua possivel extinção no mundo das coisas de uso, é que o Design moderno e os designers conteporâneos não deram a devida atenção para esse tipo de mobiliario centenário e que tanto serviu e serve para a praticidade e conforto doméstico.
Outra razão para mostrar um pouco da historia do aparador é que ela é muito rica em soluções formais, mesmo sendo um movel com uma função especifica e limitado em  formato  para atender a sua função básica de armario baixo.  E ai vem a pergunta : como um movel de uso especifico (um armario baixo) e com medidas mais ou menos padronizadas, pode ser um objeto com tantas variações formais?
Com o APARADOR aprendemos uma lição de Design formal: a limitação da função não é um empecilho para o desenvolvimento formal; ao contrario é na limitação funcional que o Design trabalha para desenvolver belos exemplos de utilidade.
É o que veremos nas imagens a seguir!
Uma boa parte dos objetos que usamos no dia a dia provem da Revolução Industrial. Os objetos de uso que surgiram antes da era industrial como os calçados, o vestuario, os moveis, a cerâmica, entre outros, passaram a ser produzidos em escala de produção a partir das ultimas décadas do seculo XVII  e uma variedade enorme de outras utilidades surgiram  com o afã consumista da burguesia por coisa novas para o seu conforto e bem estar.E o aparador é um deles.  
Até o final do seculo XVIII as salas de jantar dos nobres e ricos tinham tabuas largas e longas para colocar os alimentos e utensilios de serviço para o apoio no jantar. Por que o jantar? Era o momento solene das familias dos nobres e posteriormente dos burgueses da era industrial.O pobre não tinha almoço ou jantar, comia-se na hora que dava, quando tinha mantimentos.
As tabuas ou mesas de apoio eram, em geral, feitos de marmore ou madeira, apoiada sobre uma estrutura qualquer ou sobre pequenos moveis. No final desse século passaram a ser substituidos por pequenos armarios fechados por portas e com prateleiras, para guardar a aparelhagem de serviço. Num catalogo de 1778 da loja Hepplewhite de Londres, aparece o que possivelmente seria o primeiro aparador de fato. Era já uma peça de mobiliario para esss uso especifico uso e conforme o catalogo servia para guardar talheres, pratos e demais utensilios do serviço de jantar. Cabe ao inglês Hepplewhite, portanto, o designer do primeiro aparador. Com o avanço e consolidação da revolução industrial, cresceu o numero de itens funcionais fabricados em quantidades para o uso doméstico e o aparador passou a ser um movel extremamente util.
O aparador como conceito, ao contrario da maioria dos outros objetos e uso, surgiu quase sem querer. Conforme contam foi Robert Adam por volta de 1750, pensou em unificar numa unica peça, os diversos moveis utilizados para o serviço do jantar, como os pequenos armarios, baus, caixas e mesas que guardavam as louças,  cristais, copos e taças, poncheiras, talheres  e os demais utensilios usados na epoca.  Geralmente esses moveis ficavam espalhados pela sala e quando eram usados na hora do janatar, os colocavam perto da mesa para facilitar o serviço. Então Robert Adam teve a ideia de agrupa-los e encosta-los na parede lateral mais proxima da mesa, onde normalmente se colocava uma pintura e esse jeito de colocar os objetos para o serviço de jantar, passou a ser chamado em inglês de “sideboard”.
O tempo passou e outro inglês, o fabricante de móveis que  criou um estilo proprio, Thomas Chippendale, resolveu agrupar os moveis de serviço num só e o “sideboard” virou uma peça unica de mobiliario. Vendo a sua importancia no cenario doméstico inumeros fabricantes passaram então a desenvolver os aparadores com o seus proprios estilos. Notadamente os ingleses se destacaram no Design do aparador.
A partir do seculo XIX o aparador se tornou um objeto de uso indispensavel nas residencias inglesas e se espalhou pelo mundo. Sob a influencia e fabricação inglesa, os americanos desenvolveram os seu proprios aparadores, seguindo o Design Chippendale.  Até hoje é um estilo conhecido e caro, um movel de linhas pesadas, peças torneadas  e historicamente marcado pelos famosos apoios (4, 6 e até 8 em função da largura do aparador) em madeira trabalhada, com o formato de patas. (Figs. 1 a 4)
Do inicio marcante do Chippendale:

  
  
Figs. 1 a 4 - A evolução do estilo Chippendale de aparadores no sec. XIX

Ainda no século XIX, inumeras marcenarias europeias passaram a fabricar aparadores, cada um introduzindo inovações formais, novos materiais e acabamentos. O Design Sheraton é um desses exemplos: a forma ficou mais refinada e leve, a curva foi introduzida e o metal fazia parte da solução formal e não apenas nos puchadores e dobradiças. (Figs.5 e 6)
Veio a sutileza formal do aparador Sheraton:
MAHOGANY LATE SHERATON SIDEBOARD (American). INLAID MAHOGANY SHERATON SIDEBOARD WITH TAMBOUR WORK AND METAL GALLERY.
Figs. 5 e 6 - Thomas Sheraton, 1750-1806: O refinamento formal surgiu em plena época vitoriana.
O estilo Regency prevaleceu durante toda a segunda metade do seculo XIX. O interessante em termos de Design é que as soluções formais ora se voltavam para a leveza ora para o largo e pesado, o que significa a preocupação formal com a função em si. O aparador não mais  se restringia a sua função utilitaria, tinha formas a serem exploradas. Bem tipico do periodo romantico do movel!
Prolongada pelo romantismo do estilo Regency:

    
Figs. 7 e 8- A preocupação formal prevalecia sobre a função do ideario romantico do sec. XIX

E a forma explodiu em variações inesperadas para um movel com limitações funcionais. As vezes belas formas, as vezes bizarras, o aparador fez fama e marcou a historia do Design no seculo XIX: (Figs. 9 a 14)

Paire d'enfilades    Venda todos os tipos do sideboard antigo chinês Antique Sideboard
Fig.9 - Henry Dasson, séc. XIX      Fig.10 - Chinês, sec.XIX       Fig.11- Brass Moubted, 1830

 The Robinson Crusoe sideboard    Ivory Inlaid Credenza   Buffet à étagères
Fig.12 - R.Crusoe,G. Robinson,1862 | Fig. 13 - Adrian Ivory,1880 | Fig.14 - Ètagerés, Joubert, séc.XIX

Nas ultimas decadas do século XIX e entrando na primeira do século XX, sob a influencia dos movimentos artisticos e conceituais que aconteceram na Europa e já com a grande oferta de produtos variados para uso doméstico, os aparadores foram incorporados ao Design industrial que surgia para combater as formas classicas da primeira era da revolução industrial. E sob a egide dos dos grandes designers, mudaram de aspecto do aparador para atender maior numero de itens de serviço, com formas distintas dos antigos aparadores. A parte superior da mesa de serviço passou a ter uma função ou simplesmente para compor o aspecto formal.  Era o modernismo batendo a porta do aparador e os designers da epoca desenvolveram peças de extrema beleza e funcionalidade. Foi a época aurea desse objeto de uso, basta ver nas imagens abaixo,  uma pequena amostra das soluções formais desenvolvidas por alguns deles. (Figs. 15 a 23)
Viraram pomposos, como marcando presença, quase cristaleiras:
 Sideboard 
Fig.15 - Ames Lamb, 1980 | Fig.16 - Edward Willian, 1867-70 | Fig.17 - C.R. Mackintosh, 1900
Peter Behrens, A Wertheim sideboard  Voysey, sideboard from Hurtmore, Surrey, photo on collectionsonline.lacma org, Los Angeles County Museum of Art.jpg   Aussy Blackwood Arts & Crafts Sideboard
Fig.18 - Peter Behrens, 1902 | Fig.19 - Charles Voysey, 1900s | Fig.20 - Aussy Blacwood, 1900 
    Josef Hoffman ~ Sideboard ~ 1913 por sftrajan.    
Fig.21 - Van de Velde, 1902 | Fig.22 - Joseff Hoffman, 1913 | Fig.23 - Hector Guimard, 1902

O tempo passou e o modernismo chegou ao Design. Sob a tutela da Art Déco, uma mistura decorativa de varios estilos, incluindo o CubismoModernismoBauhaus,Art Nouveau e Futurismo, o Design do aparador, entre 1925 até o inicio da década de 1940, foi uma festa de soluções formais inusitadas, ousadias no uso de novos materiais e atrevimento no aspecto funcional. Na Art Déco, como em tudo que foi construido e manufaturado, seguindo esse conceito, o aparador mostrou ser um objeto de uso extremamente fecundo no desenvolvimento  das possibilidades formais. O aparador – entre outros de menor monta-, deixou de ser aquele movel de forma tecno-funcional e extrapolou. Já nã era mais um movel restrito em suas partes funcionais e suas superficies pularam para fora do gabinete formando volumes protuberantes, as curvas surgiram solenes com detalhes formais simples, sem adereços.Fantasia de beleza pura e insofismavel. Foram tantos os “sideboards” desenvolvidos que nem precisava de um designer, eram produtos de um conceito, sonho e criatividade. (Figs. 24 a 28)
A forma como conexão, a função como pretexto, a ousadia como solução.
An Art Deco Sideboard in Mahogany by Gabriel Englinger            A Two Door Art Deco Sideboard Attr. to Dominique 
Fig. 24 - Gabriel Englinger, cerca de 1935.      Fig. 25 - Dominique, 1930s

Art Deco sideboard   Art deco sideboard by $(designerName) for sale at Deconet  Art Deco walnut sideboard
Fig.26 - Anos 1930s, desconhecido | Fig.27 - 1938, francês | Fig.28 - Inglês, 1930s

Durante o período da segunda Guerra mundial não houve  por parte da influencia do funcionalismo Bauhaus e do Design Corporativo americano as formas, tamanhos  e usos foram simplificados. A medidas dos aparadores que já vinham desde  a segunda década do século XX sendo usadas, ganharam certa padronização. Superficies lisas feitas de compensado ou madeira maciça, apoiados sobre pequenos pés geometricos ou rodapés, ajudaram a normatizar a forma e função do aparador. O Design perdeu a sua vez e o velho aparador se tornou um movel sem autor, só tinha apelido. A simplificação formal se tornou algo obrigatorio, o  designer não.(Figs. 29 a 32)
Winchester Dining Range Buffet Base OCEAN Sideboard Windsor Large Sideboard Ankara Sideboard
Fig.29 - Winchester | Fig.30 - Ocean | Fig. 31 - Windsor | Fig.32 - Ankar

Nos anos 1950s o consumismo dava os seus primeiros passos rumo a generalização nos EUA e deu origem a uma nova forma nos moveis – os conhecidos “pés de palito” - e os aparadores, acompanharam essa estranha onda. Não era apenas uma questão dos pés serem finos e alongados e em forma de cone, mas porque houve uma separação entre o corpo ou gabinete do aparador e a sua base estrutural. A forma reta predominava junto com a mistura de materiais tradicionais e novos, como as chapas melaminicas. (Figs.33 a 36)
Os famosos “pés de palito” surgiram como reflexo da nova era após II Guerra, mas sem explicação conceitual, apenas uma nova forma de Design.
           
Fig. 33 - Típico modelo “pés de palito”  | Fig. 34 - Modelo “retro” atual. Abdul Ghafoor
   
Figs. 35 e 36 - A forma reta, os longos pés cônicos, mistura de materiais e detalhes formais como adereços.
Quer gostem ou não dos retumbantes móveis “pés de palito” o que importa é que é determinaram o aspecto do aparador moderno: a separação entre a parte funcional e de apoio de pés alongados. (Figs. 37 a 39)
O modo formal “pés de palito”  se transformou num conceito.

  Danish sideboard in teak by $(designerName) for sale at Deconet Ib Kofod-Larsen Faarup Danish Modern Rosewood Sideboard 
Figs. 37 a 39 - Os “pés de palito” mudaram e se transformaram em apoios variados.
E assim chegamos à contemporaneidade. A saga do aparador continua viva, para mostrar que o Design pode ser retumbante em forma e função, mas nunca nas possibilidades de inovação.(Figs.40 a 45)
Nada morre quando o Design vive, os aparadores modernos bem demonstram e a saga continua:

Acerbis: Lyneus Sideboard Wave sideboard
Fig. 40 - Lyneos                            Fig.41 - Wave, Russel Pinch
             
Fig.42 - Radar                                      Fig. 43 - Soho, Boca de Lobo
Zeppelin sideboard by Cedri Martini 
Fig.44 - Cedri Martini                                    Fig.45 - Karin Raschid
No Brasil o Design e seus atores não dão muita importancia a esse objeto de uso que atravessa três séculos. De maneira geral apenas as fabricas que fornecem para as grandes redes de lojas que ainda se interessam por esta categoria de móveis e aqui e acolá, uma pequena empresa ou designer independente  desenvolve alguma coisa boa e nova. Uma parte da produção se resume nas chamadas mesas-aparadoras, por serem mais baratas e de maior demanda por se adaptarem nos espaços menores dos apartamentos da classes médias, quase sempre nos tradicionais quatro pés. (Figs.46 a 48)

   
Figs. 46 a 48 - As mesas aparadoras com os tradcionais quatro pés são comuns no Design brasileiro
De vez em quando surgem impolutas as mesas aparadoras apoiadas lateralmente e com alguma inovação formal, nos materiais e nos detalhes formais.(Figs. 40 a 51)

  
Fig. 49 a 51 - Mesas aparadoras brasileiras com alguma novidade construtiva.
Ou se resumem a caixas de armario baixo como os de antigamente só para falar nos que merecem alguma atenção. Imaginem o resto ou busquem nas casas bahia da vida. Mesmo assim temos alguns exemplos de bom Design no conceito,pela qualidade construtiva e principalmente, pela persistencia em continuar a saga dos aparadores. (Figs.52 a 54)

  
Figs. 52 a 54 - Mesmo discretos e conservadores os aparadores brasileiros merecem todo o nosso respeito pela feitura construtiva e oração formal.
Porém sempre alguém surge para salvar o que está prestes a morrer, só para lembrar que o Design existe:

Fig.55 - Xadrês, Maria Candido Machado

Fonte: http://saberdesign.com.br/content/hist%C3%B3ria-do-aparador
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2 Comente Aqui:

Regiane Araujo disse...

muito legal!!

Mônica Lima Andrade disse...

Nossa esse post foi uma verdadeira aula de história e um post de utilidade pública , adorei!
Menina , pode até estar em desuso, mas AMO essa peça como parte da decoração da casa ! Acho essencial em qualquer ambiente da sala e tbm no hall de entrada...São solitários , porém cheios de charme e glamour..
Bjim!

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Bjs

Káh Lima Romão

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